VISITA
VISITA

No hospital, o homem na cama.
Na cama está, como se a cama o vestisse.
Está no quarto como se o quarto fosse sua nave.
No quarto, viaja-se a imensidão.
Porque o homem quieto, espera o fim,
a passagem, o novo ciclo, a fronteira,
conforme a crença de quem olha.
Seja lá o que for, o momento é do silêncio.
Nada, ali, há razão que alcance.
A fé às vezes se arrisca e só arranha um vislumbre.
Mas revelação, transparência, não há.
Entra uma luz pela janela, como uma nuvem
de fracas agulhas, douradas, porém frias.
Há outonos pousados nos olhos do homem
que arqueja entre tubos. Como ungüentos.
Fraco, está o homem. Exausto, pequeno.
O homem ali, em sua nave, apto às reflexões.
Passo a mão em seus cabelos.
Seguro sua mão que agora murcha.
Com palavras estreitas, mas de lã,
trago a lembrança dos feitos, dos fatos,
vividos pelo homem bravo.
Digo as bênçãos possíveis.
(Devia ter cantado pra ele.
Na hora, não me ocorreu.
Música é a palavra da alma.
Devia ter cantado!)
Brinco com o homem que ali está
falando do homem que ali existia
e que hesita, no portal de partida.
O homem prestes.
Ele sorri. Levemente move a mão.
Sacode fugazmente a cabeça.
Vejo que, na verdade,
é o mesmo homem de sempre que está ali,
que ouve, reconhece, responde,
embora não mais verbalize.
O mesmo homem com sua história,
sua memória e sua identidade.
E mesmo que só quieto, ali, estivesse,
ainda que pouco só respirasse.
O mesmo homem.
A mesma vida. Sagrada.
Que escoa. E vida, nunca é à toa.
Por isso não compreendo
os que precipitam momentos,
desprezando esse fiapo de vida que resiste,
heroicamente, desempenhando seus mandatos.
Gotejando vida que é sempre coisa rica,
coisa que não se desperdiça.
Saí dali, como sempre,
impactado em mistérios e humildades,
mas cevado de fé na vida que, seja rio ou arroio,
seja em começos ou em confins
deve ser com garbo vivida, porque
vida é sempre edificação gloriosa.
Assim Deus a fez. Assim Deus a cobra.
*.*



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Escrito por Denilson Cardoso de Araújo às 19h07
